domingo, 25 de setembro de 2011

O diabo que se apaixonou por Deus

Certo diabo apaixonou-se por Deus sem nunca tê-lo visto. Depois de preparar-se por longo tempo, e com a ajuda de um informante, conseguiu infiltrar-se no complexo celeste e foi comprando com subornos, nível após nível, a vasta hierarquia de segurança que o separava da presença divina. Esse trajeto demorou muitos anos.
Naquela tarde o diabo molhou a mão do penúltimo intermediário e adentrou a ante-sala do trono por uma portinha lateral de serviço, junto da qual o esperava um anjo de cavanhaque e costas muito largas.
– Entre de uma vez – ordenou o anjo, e fechou a porta logo em seguida. A vinte passos deles, alto como uma montanha, dormia em sua cadeira o guardião da sala do trono.
Sem qualquer outro intercâmbio eles transpuseram o espaço até junto da porta da proposição, que está sempre fechada e cujas folhas esculpidas em madeira e revestidas de ouro têm cento e quarenta e quatro mil anos-luz de altura.
– Então – disse o anjo, quando estacaram diante da porta e avaliaram-se pela primeira e pela última vez – é você o diabo que apaixonou-se por Deus e vem procurando uma oportunidade de encontrar-se com ele.
– Apenas me poupe desse ar de superioridade moral – respondeu o diabo, ignorando a pergunta. – porque você sabe muito bem que somos muito parecidos. Nós no inferno odiamos tanto o pecado quanto vocês deste lado do abismo. Se estivesse prestando atenção, perceberia que são só os pecadores, os apóstatas e réprobos que nós atormentamos. Só os pecadores podem ser tentados, e só eles conhecerão a aflição da nossa miséria e do nosso desespero. Os santos, os valorosos e puros despertam apenas nossa admiração; nesses não ousaríamos tocar.
– Ou talvez seja nisso que você quer que eu acredite.
– Acredite no que quiser – pediu o diabo. – Apenas saiba, porque não tenho outra a pessoa a quem dizer, que foi justamente esse amor pela integridade e esse desprezo pela corrupção que fizeram com que eu me apaixonasse pela imagem divina.
O anjo deu de ombros e empurrou a porta, que era tão pesada e vasta que foram necessários mil anos para abrir uma fresta pela qual o diabo pudesse passar. A porta rangeu formidavelmente, mas o guardião em sua cadeira não se moveu nem despertou.
O diabo apertou nas mãos do anjo o valor que haviam ajustado, e fez menção de entrar na sala do trono pela estreita passagem. No último instante o anjo segurou-o pelo braço.
– Só preciso que você não ignore, porque quero ser honesto com você – disse o anjo, – que transposta esta porta a distância até o trono é vasta ao ponto do incalculável, e que quando finalmente chegar você estará velho, cansado e desorientado. Não só isso, mas encontrar-se com Deus terá para você um efeito inteiramente descaracterizador. Bastará contemplar pelo mais breve instante a divina presença para você ser imediatamente consumido por ela. Você não terá oportunidade de admirar a imagem de Deus ou de declarar o seu amor. Você terá gasto a sua vida inteira para chegar até Deus, e irá perdê-la para sempre no instante em que o encontrar. Se deixo você passar é porque sua entrada não representa risco para Deus; mas representa um horrendo risco pra você.
– Eu sei – disse o diabo, e seu rosto estava impassível.
– A divindade certamente não ignora que estou transgredindo deixando você entrar; porém Deus está tão distante que quando sua punição chegar já terei há muito deixado de existir. São poucos os que se dispõem a gastar a sua longevidade transpondo o espaço até ele.
E soltou o braço do diabo, que atravessou o limiar e desapareceu sala do trono adentro.
O trajeto até o trono de Deus demorou várias eternidades. As estrelas que o diabo trazia nos olhos se apagaram, e as flores perenes que trazia como presente converteram-se em sequidão e decrepitude e ele deixou-as no caminho, e o trono não chegava. Galáxias nasceram e morreram, e à sua sombra foi-se encurvando e distorcendo a espinha dorsal de todas as coisas, mas o diabo continuou andando. Atravessou resignadamente o silêncio das eras e a esterilidade dos mundos, e quando alcançou a outra extremidade da sala estava velho e cansado, e não trazia mais consigo nenhuma das certezas que lhe haviam iluminado o caminho.
Para sua surpresa, quando chegou ao fim do caminho não havia trono algum, nem qualquer indício da residência de Deus: só uma porta baixa com uma cortina barata de miçangas, e por trás dela um esplendor. O diabo bateu palmas uma vez, depois duas, e por fim uma voz o convidou a atravessar.
Ele afastou com as mãos as fileiras de contas, abaixou a cabeça e do outro lado encontrou um homem decrépito, desdentado, seminu e cheio de chagas, dormindo em imundícia sobre caixas de papelão numa avenida da cidade grande.
O diabo estava velho e cansado, mas seu rosto de diabo ainda era belíssimo, o corpo forte e obediente, os trajes impecáveis e magníficos. Ele reconheceu Deus imediatamente, ajoelhou-se sem qualquer recato sobre a imundícia, tomou-o nos braços e beijou-o longamente na boca sem dentes.
Depois tirou a capa e fez menção de cobrir com ela a nudez divina, mas Deus deteve sua mão com um braço raquítico.
– Não, não faça isso! Minha nudez e minha velhice e minha fome são meu brasão nobiliárquico, e decidi há muito tempo não tentar, até o final, seduzir os homens com outro recurso.
– Mas Deus – implorou o diabo, – eu atravessei eternidades e dormi no vácuo entre as estrelas só para poder finalmente declarar-lhe o meu amor! Permita-me vesti-lo, alimentá-lo e acalentá-lo, para que minha jornada não tenha sido em vão! Permita que eu o carregue de volta até o Paraíso, onde os santos lhe tratarão as chagas, onde os anjos lhe alimentarão de pão e onde a luz sem mácula da santidade lhe restaurará a saúde e a glória!
Mas Deus apertou a mão do diabo e olhou-o firmemente nos olhos.
– Não, não, mil vezes não! Não posso retribuir o seu amor, porque minha paixão é outra – e nesse ponto Deus apertou ainda mais o cingir dos dedos, – mas eu aceito o seu amor. Eu o aceito e o perdoo, como você vai perdoar o meu. A mim também disseram que a viagem seria impossivelmente longa e que, quando eu chegasse, aquele que amo não seria capaz de me reconhecer. A mim também disseram que o encontro com meu amado representaria o meu imediato e derradeiro fim, e que tudo que há de bom e virtuoso em mim seria imediatamente consumido pela minha decisão de partilhar da sua condição. A mim também disseram que neste trajeto o risco seria apenas meu, e que eu estaria derramando em vão o mais precioso amor por quem se mostraria inteiramente incapaz de aceitá-lo e de retribuir.
E o diabo chorava convulsivamente.
– Mas – e Deus levantou sobrancelhas patéticas e sorriu com três ou quatro dentes, – valeu à pena. É por isso que convém até o final que o homem me veja assim, sem qualquer disfarce, para que possa quem sabe me reconhecer e me amar.
O diabo então sentou-se em seus trajes magníficos ao lado da divina miséria, e dormia abraçado a Deus para proteger-lhe do frio, e exultava quando um homem parava um instante para deitar aos seus pés uma moeda ou um pedaço de pão. E de noite acordava sobressaltado, quando não tinha certeza se ainda ouvia no divino peito o divino coração.

Paulo Brabo

Fonte: http://www.baciadasalmas.com/2011/o-diabo-que-se-apaixonou-por-deus/

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Doutrinas Autoritárias

Tem se tornado comum os ditadores religiosos chamarem de rebeldes os que escapam de seu sistema de controle, apesar de a Bíblia definir a rebeldia como o ato de desobediência aos mandamentos de Deus. Isso não passa dum meio de manipulação no sentido de pressionar as pessoas, e não deve ser levado em conta, pois na Escritura, Deus chama de rebeldes exclusivamente àqueles que desobedecem aos preceitos éticos divinais.
Se uma pessoa decide deixar uma organização religiosa, não estando em falta à vista de algo mal feito que paire contra si, ou em virtude de algum descumprimento de seus compromissos, então, onde está a rebeldia? O termo “rebelde” vem se aplicando ultimamente a pessoas que tem se negado a se tornarem cúmplices de manipulações doutrinais e de atos ilícitos de líderes autoritários.
É surpreendente que os ministros e seitas que estão fora de autoridade espiritual, tenham o cinismo de chamar rebeldes àqueles que, tendo se cingido das Escrituras, os questionam, pedindo reformas de práticas autoritárias, se negando a participar em ilicitudes e os denunciando. Dito de outro modo, há sistemas religiosos que estão em rebeldia, e chamam de rebeldes àqueles que atuam em consonância com a autoridade dos ensinamentos de Jesus. Incrível!
Ironicamente, o próprio Novo Testamento é quem qualifica de rebeldes àqueles ministros e grupos religiosos que, com suas inumeráveis fraudes, imoralidades e desobediência ao Evangelho de Cristo, condenam inocentes taxando-os de “rebeldes”.
Jamais deveríamos temer tais acusações de “rebeldia” provindas de ministros que vivem de forma imoral ou desonesta ou que se afastam dos ensinamentos de Cristo. Eles não têm nenhuma autoridade divina.

O mito de que não se devem questionar os ungidos.
Um dos ensinamentos favoritos para infundir medo e manter cativas as consciências das pessoas, afastando-as da utilização da sua razão, está baseado neste texto do Antigo Testamento: “... não toqueis os meus ungidos...” (Salmo 105:15)
Com esta passagem os líderes autoritários pretendem, em primeiro lugar, eles próprios se estabelecerem como os tais ungidos. Em segundo lugar, ensinam que ninguém em sua congregação pode questionar com base nas Escrituras o ministro, nem assinalar que são más determinadas práticas ou doutrinas, tampouco dizer que esteja em pecado, ainda que seja comprovável e que esteja prejudicando alguém! Pois, isso seria “tocar no ungido” e segundo dizem, “se lhes acarretará o castigo de Deus sobre sua vida”.
Desta maneira eles podem ensinar o que querem, e assim também se conduzirem como melhor se lhes apetecerem, sem temer a obrigação de responderem diante de alguém por qualquer coisa que façam.
Esta doutrina de “sujeição à autoridade” não somente é falsa, como também é contrária aos ensinamentos de Jesus, pois o Novo Testamento ensina que se o “nosso próximo” cai em pecado ou ensina algum erro, temos a obrigação de exortá-lo: “ Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão” (Mateus 18:15)
O Novo Testamento ensina que se o nosso próximo está em pecado, temos o dever e o compromisso de confrontar sua falta. O negar-se a fazer isso que é pecado. É falta de amor.
O mito de que não se deve questionar aos autodenominados ungidos é falso, pois contradiz estes claros mandamentos do Novo Testamento.

A interpretação correta do texto: “"Não toqueis, disse, nos meus ungidos”. O que realmente significa a passagem de Salmos 105:15?
Em primeiro lugar se refere, no contexto, a Abraão e à sua descendência em sua etapa inicial como “os ungidos”, não a um líder em particular. Nesse caso uma aplicação moderna da passagem seria que não se deve tocar em qualquer membro do povo de Deus.
Mas o que significa “tocar”? Bem, a passagem foi dada para que as poderosas nações vizinhas do povo hebreu, até então um pequeno grupo de nômades, não o saqueasse, o matasse ou o roubasse, enquanto seguia em suas peregrinações. “Tocar” significava, no contexto, não prejudicar fisicamente a Abraão e a família. Isso é tudo o que diz a passagem, e se nos damos conta, isso não tem nada a ver com a proibição de confrontar, repreender, denunciar, questionar ou afastar-se de um líder religioso que se delinqüe ou que torce os ensinamentos de Cristo.
Se como os líderes autoritários nos dizem, “tocar” num ungido é questionar um ministro e isso está proibido, então com que razão Paulo questionou e repreendeu a Pedro e logo depois registrou o fato em uma carta como exemplo aos cristãos da Galácia? (Gálatas 2:11-16)

Aprendamos isso: A Bíblia nos permite tanto questionar os ministros, como também confrontá-los, quando vemos que há um sério erro doutrinário ou da práxis ética em suas vidas. Isso está claramente estabelecido na Palavra de Deus:
- “Este testemunho é verdadeiro. Portanto, repreende-os severamente para que sejam sãos na fé” (Tito1:13).
- “Que pregues a palavra; que instes a tempo e fora de tempo; redarguas, repreende, exorta com toda paciência e doutrina” (2 Timóteo 4:2-3)
- “Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficásseis em Éfeso para advertires a alguns, que não ensinassem outra doutrina” (1 Timóteo 1:3)

De fato, não somente temos o direito de questioná-los. Temos também o direito de abandoná-los e sair de sua esfera de influência caso se recusem a corrigir a sua conduta imoral ou ensinamentos torcidos.
Leiamos o que Cristo ensina a respeito:
- “Deixe-os; são condutores cegos; ora se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova” (Mateus 15:14).
- “Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão; mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano” (Mateus 18:15-17).
Diante de tudo o que foi exposto, podemos constatar que os grupos autoritários manipulam as Escrituras para evitar prestar contas de seus atos aos fiéis.


Você não tem que cair no mesmo abismo.

Recebi este texto, via e-mail, sem a indicação da autoria.

Publicado por Sandra  Botelho, em:
https://www.facebook.com/notes/sandra-botelho/doutrinas-autorit%C3%A1rias/277245682295040

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Evangelicalismo Pós-Stott

Ainda vivos, dos “velhos leões”, do evangelicalismo anglicano, temos J. I. Packer e Michael Greene, ambos aposentados e ainda produzindo. John Stott havia feito a sua última palestra para um grande público na Conferência de Keswick, em 2006, ano em que deixa o seu querido apartamento da Wymouth Street e se muda para o St. Barnabas College, um lar geriátrico para clérigos, onde ainda escreve O Discípulo Radical, terminado no ano passado. O fato é que já há alguns anos a Igreja da Inglaterra começara a viver a era pós-Stott. 70% dos estudantes de teologia estão matriculados em seminários de tendência evangélica, e 55% dos clérigos se auto-identificam como evangélicos, embora tenhamos apenas 25% dos bispos (nomeados pelo Governo) com essa identidade.

Apesar da importância do Conselho Evangélico na Igreja da Inglaterra (CEEC), uma parcela considerável dos clérigos, e a maioria dos bispos, vivem o seu evangelicalismo individualmente, não militando afirmativamente em nenhum movimento, seja por comodismo, seja por opinionismo, há uma fragmentação de tendências. Apesar do peso intelectual de N. T. Wright e Allister McGrath, e de alguns outros, há um vazio de liderança, pois os tais ou estão instalados no sistema ou não são militantes. A verdade é que o forte evangelicalismo na Igreja da Inglaterra tem uma presença muito reduzida na liderança do GAFCON (Global Anglican Future), que acaba de instalar um escritório em Londres, chefiado pelo Bispo Martyn Meens (CANA/Nigéria).

Algo se assemelha aos Estados Unidos pós-Billy Graham, entre os históricos, e pós-Rex Humbard, entre os pentecostais, com uma profusão fragmentada de tele-evangelistas e mega-igrejas, sem o mesmo calibre e sem o mesmo carisma unificador, cada um vendendo o seu peixe e procurando aumentar a sua influência, concorrencialmente.

O Congresso Lausanne III, na Cidade do Cabo, em outubro de 2010, confirmou o caráter pujante, mundial do evangelicalismo, deslocado para o hemisfério sul, mas com os gringos europeus e norte-americanos ainda sendo os financiadores e os que dão as cartas.

No Brasil, a hegemonia evangélica ainda é um fato, e Stott (C. S. Lewis, Packer, etc.) ainda é lido e levado a sério entre os protestantes históricos e em amplos círculos pentecostais, mas o crescente neo (pseudo) pentecostalismo nunca leu esses autores (e tem raiva de quem lê). Os bolsões fundamentalistas os considera “de esquerda” na questão social e ambiental, ou na abertura para as Ciências Humanas, e o recente crescimento do pensamento liberal em algumas denominações e em seminários é formado pelos que consideram tais autores “ultrapassados”. Esse último fenômeno é o que nos traz maior preocupação.

Muita gente pranteia a morte de Stott. Seus livros estão em todas as prateleiras de livrarias e bibliotecas, mas, o que eles defendem, estarão nas mentes e nos corações?

Com a palavra a nascente Aliança Cristã Evangélica do Brasil, a Fraternidade Teológica Latino-americana, setor Brasil, e os pastores e líderes que se dizem evangélicos diante do desafio externo do Secularismo e do Islã, e do desafio interno do Liberalismo Pós-Moderno.

Resta esperar para ver, enquanto alguns reafirmamos e trabalhamos.

Robinson Cavalcanti
É bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política — teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo — desafios a uma fé engajada.

Fonte: www.ultimato.com.br

Orar... (Open - Rob Bell)


NOOMA 19 - Open - Rob Bell (Legendado) from Marcelo Mioto on Vimeo.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Evangélicos sem espetáculo

Nicholas D. Kristof, The New York Times - O Estado de S.Paulo

Nesta época de polarizações, poucas palavras provocam tanta aversão nos ambientes liberais quanto "cristão evangélico".

Em parte, isto se explica porque, nos últimos 25 anos, os evangélicos foram associados a personagens rabugentos e fanfarrões. Quando os reverendos Jerry Falwell e Pat Robertson debateram na televisão se os ataques de 11 de Setembro foram uma punição de Deus contra as feministas, os gays e os secularistas, Deus deveria tê-los processado por difamação.

Anteriormente, Falwell defendera que a aids é "o julgamento de Deus sobre a promiscuidade". Esta presunção religiosa permitiu que o vírus da aids se espalhasse, constituindo uma imoralidade maior do que tudo o que poderia acontecer nas saunas gays.

Em parte, por causa desta postura bem-pensante, todo o movimento evangélico frequentemente foi condenado pelos progressistas como reacionário, míope, irracional e até mesmo imoral.

Entretanto, esse menosprezo casual é profundamente injusto, se considerarmos o movimento como um todo. Ele reflete um tipo de intolerância às avessas, às vezes um fanatismo às avessas, dirigido contra dezenas de milhões de pessoas que na realidade se envolveram cada vez mais na luta contra a pobreza e na defesa da justiça global.

Essa linha compassiva da corrente evangélica foi dotada de bases extremamente sólidas pelo reverendo John Stott, um moderado estudioso inglês que influiu de maneira muito mais importante no cristianismo do que astros da mídia como Robertson ou Falwell. Stott, que morreu há alguns dias aos 90 anos, foi incluído na lista das cem pessoas mais influentes do globo da revista Time. Em termos de estatura, às vezes foi considerado o equivalente do papa entre os evangélicos de todo o mundo.

Stott não pregou acenando com a ameaça das penas do inferno numa rede cristã de televisão. Ele foi um humilde estudioso cujos 50 livros aconselham os cristãos a emular a vida de Jesus - principalmente sua preocupação com os pobres e os oprimidos - e a se opor a mazelas sociais como a opressão racial e a poluição ambiental.

"Os bons samaritanos sempre serão necessários para socorrer os que foram assaltados e roubados; entretanto, seria melhor acabar com os bandoleiros na estrada de Jerusalém a Jericó", escreveu Stott em seu livro A Cruz de Cristo. "Por isso, a filantropia cristã em termos de alívio e ajuda é necessária, mas muito melhor seria um aprimoramento a longo prazo, e nós não podemos fugir da nossa responsabilidade política e da necessidade de participar da transformação das estruturas que inibem este aprimoramento. Os cristãos não podem olhar com tranquilidade as injustiças que arruínam o mundo de Deus e degradam suas criaturas".

Stott deu exemplos das injustiças contra as quais os cristãos precisam lutar: "os traumas da pobreza e do desemprego", "a opressão das mulheres", e na educação, "a negação de iguais oportunidades a todos".

Para muitos evangélicos que sempre se retraíam quando um "televangélico" ganhava as manchetes, Stott era um guru intelectual e uma inspiração. Richard Cizik, presidente da Nova Igreja Evangélica Parceria para o Bem Comum, que trabalhou heroicamente para combater desde o genocídio até a mudança climática, me disse: "Contra a charlatanice e a irracionalidade no nosso movimento, Stott permitiu afirmar que você é "evangélico" e não deve se arrepender".

O reverendo Jim Wallis, diretor de uma organização cristã chamada Sojourners (Os visitantes), que trabalha em prol da justiça social, acrescentou: "John Stott foi o primeiro líder evangélico importante que defendeu o nosso trabalho na Sojourners". Stott, que foi um aluno brilhante em Cambridge, também ressaltou que a fé e o intelecto não precisam ser conflitantes.

Há muitos séculos, o estudo profundo da religião era extraordinariamente exigente e rigoroso; por outro lado, qualquer um podia declarar-se cientista e passar a exercer a alquimia, por exemplo. Hoje, é o contrário. Um título de doutor em química exige uma formação rigorosa, enquanto um pregador pode explicar a Bíblia pela televisão sem dominar o hebraico ou o grego - ou mesmo sem mostrar interesse pelas nuances dos textos originais.

Os que se denominam líderes evangélicos revelam-se hipócritas, transformando Jesus em lucro em lugar de emulá-lo. Alguns parecem inclusive homofóbicos, e muitos que se declaram "a favor da vida" parecem pouco preocupados com a vida humana depois que ela sai do útero. São os pregadores que aparecem nas manchetes e são menosprezados.

Escrevendo sobre a pobreza, as doenças e a opressão, encontrei outros ainda. Os evangélicos estão desproporcionalmente dispostos a doar o dízimo do que ganham a obras de caridade, em geral ligadas à igreja. O mais importante é que se procuramos nas linhas de frente, nos EUA ou no exterior, nas batalhas contra a fome, a malária, as violações nas prisões, a fístula obstétrica, o tráfico de pessoas ou o genocídio, alguns dos mais corajosos que encontramos são cristãos evangélicos (ou católicos conservadores, que a eles se assemelham de muitas maneiras) que vivem verdadeiramente a sua fé.

Não sou particularmente religioso, mas reverencio os que vi arriscando sua vida dessa maneira - e me enoja ver esta fé ridicularizada em coquetéis em Nova York.

Por que tudo isto é importante?

Porque tanto as pessoas religiosas quanto as seculares fazem um trabalho fantástico em questões humanitárias - mas elas frequentemente não trabalham juntas em razão das suspeitas mútuas. Se pudermos superar este "abismo divino", poderemos progredir muito mais no combate às mazelas do mundo.

E esta seria, realmente, uma dádiva divina.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Mudança de rumo



“Naqueles dias surgiu João Batista, pregando no deserto da Judéia. A ele vinha gente de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a região ao redor do Jordão. Confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão.” Mateus 3. 1;5,6.

As pessoas se cansaram de ir ao templo em Jerusalém, e saírem absolutamente do mesmo jeito. Por isso elas foram para o deserto. Qualquer semelhança com o que acontece nos nossos dias é mera coincidência!

terça-feira, 5 de julho de 2011

Por um instante


A tentação do “só mais cinco minutos” é a mesma da “só mais esta vez”.
É a maldita matemática que teima em não fechar nunca.
É a loucura que por um instante parece fazer todo o sentido do mundo.
Por um instante, apenas.