terça-feira, 19 de junho de 2012
domingo, 27 de maio de 2012
sábado, 26 de maio de 2012
ALTERIDADE - Frei Betto
O que é alteridade? É ser capaz de apreender o outro na plenitude da
sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto
menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos
ocorrem.
A nossa tendência é colonizar o outro, ou partir do princípio de que eu sei e ensino para ele. Ele não sabe. Eu sei melhor e sei mais do que ele. Toda a estrutura do ensino no Brasil, criticada pelo professor Paulo Freire, é fundada nessa concepção. O professor ensina e o aluno aprende. É evidente que nós sabemos algumas coisas e, aqueles que não foram à escola, sabem outras tantas, e graças a essa complementação vivemos em sociedade. Como disse um operário num curso de educação popular: "Sei que, como todo mundo, não sei muitas coisas".
Numa sociedade como a brasileira em que o apartheid é tão arraigado, predomina a concepção de que aqueles que fazem serviço braçal não sabem. No entanto, nós que fomos formados como anjos barrocos da Bahia e de Minas, que só têm cabeça e não têm corpo, não sabemos o que fazer das mãos. Passamos anos na escola, saímos com Ph.D., porém não sabemos cozinhar, costurar, trocar uma tomada ou um interruptor, identificar o defeito do automóvel... e nos consideramos eruditos. E o que é pior, não temos equilíbrio emocional para lidar com as relações de alteridade.
Daí por que, agora, substituíram o Q.I. para o Q.E., o Quociente Intelectual para o Quociente Emocional. Por quê? Porque as empresas estão constatando que há, entre seus altos funcionários, uns meninões infantilizados, que não conseguem lidar com o conflito, discutir com o colega de trabalho, receber uma advertência do chefe e, muito menos, fazer uma crítica ao chefe.
Bem, nem precisamos falar de empresa. Basta conferir na relação entre casais. Haja reações infantis...
Quem dera fosse levada à prática a idéia de, pelo menos a cada três meses, um setor da empresa fazer uma avaliação, dentro da metodologia de crítica e autocrítica. E que ninguém ficasse isento dessa avaliação. Como Jesus um dia fez, ao reunir um grupo dos doze e perguntar: "O que o povo pensa de mim?" E depois acrescentou: "E o que vocês pensam de mim?"
Quem, na cultura ocidental, melhor enfatizou a radical dignidade de cada ser humano, inclusive a sacralidade, foi Jesus. O sujeito pode ser paralítico, cego, imbecil, inútil, pecador, mas ele é templo vivo de Deus, é imagem e semelhança de Deus. Isso é uma herança da tradição hebraica. Todo ser humano, dentro da perspectiva judaica ou cristã, é dotado de dignidade pelo simples fato de ser vivo. Não só o ser humano, todo o Universo. Paulo, na Epístola aos Romanos, assinala: "Toda a Criação geme em dores de parto por sua redenção".
Dentro desse quadro, o desafio que se coloca para nós é como transformar essas cinco instituições pilares da sociedade em que vivemos: família, escola, Estado (o espaço do poder público, da administração pública), Igreja (os espaços religiosos) e trabalho. Como torná-los comunidades de resgate da cidadania e de exercício da alteridade democrática? O desafio é transformar essas instituições naquilo que elas deveriam ser sempre: comunidades. E comunidades de alteridade.
Aqui entra a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então sou capaz de entrar em relação com ele pela única via possível – porque, se tirar essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como sou - a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral. Ou seja, isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua interioridade.
Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto - autobiografia escolar" (Ática), entre outros livros.
Fonte: http://www.freibetto.org/index.php/artigos/45-alteridade-frei-betto
A nossa tendência é colonizar o outro, ou partir do princípio de que eu sei e ensino para ele. Ele não sabe. Eu sei melhor e sei mais do que ele. Toda a estrutura do ensino no Brasil, criticada pelo professor Paulo Freire, é fundada nessa concepção. O professor ensina e o aluno aprende. É evidente que nós sabemos algumas coisas e, aqueles que não foram à escola, sabem outras tantas, e graças a essa complementação vivemos em sociedade. Como disse um operário num curso de educação popular: "Sei que, como todo mundo, não sei muitas coisas".
Numa sociedade como a brasileira em que o apartheid é tão arraigado, predomina a concepção de que aqueles que fazem serviço braçal não sabem. No entanto, nós que fomos formados como anjos barrocos da Bahia e de Minas, que só têm cabeça e não têm corpo, não sabemos o que fazer das mãos. Passamos anos na escola, saímos com Ph.D., porém não sabemos cozinhar, costurar, trocar uma tomada ou um interruptor, identificar o defeito do automóvel... e nos consideramos eruditos. E o que é pior, não temos equilíbrio emocional para lidar com as relações de alteridade.
Daí por que, agora, substituíram o Q.I. para o Q.E., o Quociente Intelectual para o Quociente Emocional. Por quê? Porque as empresas estão constatando que há, entre seus altos funcionários, uns meninões infantilizados, que não conseguem lidar com o conflito, discutir com o colega de trabalho, receber uma advertência do chefe e, muito menos, fazer uma crítica ao chefe.
Bem, nem precisamos falar de empresa. Basta conferir na relação entre casais. Haja reações infantis...
Quem dera fosse levada à prática a idéia de, pelo menos a cada três meses, um setor da empresa fazer uma avaliação, dentro da metodologia de crítica e autocrítica. E que ninguém ficasse isento dessa avaliação. Como Jesus um dia fez, ao reunir um grupo dos doze e perguntar: "O que o povo pensa de mim?" E depois acrescentou: "E o que vocês pensam de mim?"
Quem, na cultura ocidental, melhor enfatizou a radical dignidade de cada ser humano, inclusive a sacralidade, foi Jesus. O sujeito pode ser paralítico, cego, imbecil, inútil, pecador, mas ele é templo vivo de Deus, é imagem e semelhança de Deus. Isso é uma herança da tradição hebraica. Todo ser humano, dentro da perspectiva judaica ou cristã, é dotado de dignidade pelo simples fato de ser vivo. Não só o ser humano, todo o Universo. Paulo, na Epístola aos Romanos, assinala: "Toda a Criação geme em dores de parto por sua redenção".
Dentro desse quadro, o desafio que se coloca para nós é como transformar essas cinco instituições pilares da sociedade em que vivemos: família, escola, Estado (o espaço do poder público, da administração pública), Igreja (os espaços religiosos) e trabalho. Como torná-los comunidades de resgate da cidadania e de exercício da alteridade democrática? O desafio é transformar essas instituições naquilo que elas deveriam ser sempre: comunidades. E comunidades de alteridade.
Aqui entra a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então sou capaz de entrar em relação com ele pela única via possível – porque, se tirar essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como sou - a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral. Ou seja, isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua interioridade.
Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto - autobiografia escolar" (Ática), entre outros livros.
Fonte: http://www.freibetto.org/index.php/artigos/45-alteridade-frei-betto
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Panteism and Panenteism: a necessary Distinction
![]() |
| Leonardo Boff |
A radical and coherent cosmological vision holds that the
ultimate subject of everything that happens is the universe itself. The
universe causes the appearance of beings, complexities, biodiversity,
consciousness, and the contents of that consciousness, of which we are a
part.
Thus, before it arose as an idea in our heads, the reality of God was
in the universe itself. Because the reality of God was in the universe,
the idea of God could come forth in us. Starting from this concept, we
can understand that God is inherent in the universe. God is mixed with
all the processes, without being diluted by them. Better yet, God
orients the arrow of time towards the formation of ever more complex and
dynamic orders, (that, consequently, distance themselves from the
equilibrium to seek new adaptations), that are filled with purpose. God
appears, in the language of cross-cultural traditions, as the creative
Spirit, and organizer of all that exists. God is mixed with all things,
participating in their development, suffering with mass extinctions,
feeling crucified with the impoverished, and happy with the advances
towards more convergent and interrelated diversities, pointing towards
an Omega end point.
God is present in the cosmos and the cosmos is present in God. The
old theology expressed this mutual inter-penetration by the concept of
«pericoresis» applied to the relationships between God and creation, and
thereafter, to the Persons of the Divine Trinity. Modern theology has
coined another expression, «panenteism» (in Greek: pan=all; en=in;
theos=God). This is: God is in everything and everything is in God. This
word was proposed by an Evangelical, Frederick Krause (l781-1832), who
was fascinated by the divine splendor of the universe.
Panenteism must be clearly distinguished from panteism. Panteism (in
Greek: pan = all; theos=God) affirms that all is God and God is all. It
holds that God and the world are identical; that the world is not a
creation of God, but the necessary mode of being of God. Panteism
accepts no differentiation: heaven is God, the Earth is God, the rock is
God and the human being is God. This lack of differentiation easily
leads to indifference. All is God and God is all, consequently it makes
no difference whether I concern myself for a girl abused in a bus of
Rio, or about the Carnival, or the indigenous peoples facing extinction,
or a law against homophobia. This is manifestly erroneous, because
differences exist and persist.
Not all is God. Things are what they are: things. However, God is in
things and things are of God, by reason of His act of creation. The
creature always depends on God and without God the creature would return
to the nothingness whence it came. God and the world are different, but
they are neither separated nor closed, they are open one for the other.
They are different so as to make possible mutual encounter and
communion. Through it, transcendence and immanence, the contrasting
categories of Greek origin, are left behind.
Immanence is this world, here. Transcendence is the world that is beyond this. Christianity, by the incarnation of God created a new category: transparence, that is the presence of the transcendence (God) within the immanence (world). When this happens, God and the world mutually make each other transparent. As Jesus said: \”who sees me, sees the Father\”. Teilhard de Chardin lived a moving spirituality of the transparence. In The Divine Milieu, an essay on the interior life, (Le milieu divin, 162), he said: «the great mystery of Christianity is not the apparition, but the transparence of God in the universe. Not only the ray that emerges, but the ray that penetrates. Not the Epiphany but the Diaphaneity».
Immanence is this world, here. Transcendence is the world that is beyond this. Christianity, by the incarnation of God created a new category: transparence, that is the presence of the transcendence (God) within the immanence (world). When this happens, God and the world mutually make each other transparent. As Jesus said: \”who sees me, sees the Father\”. Teilhard de Chardin lived a moving spirituality of the transparence. In The Divine Milieu, an essay on the interior life, (Le milieu divin, 162), he said: «the great mystery of Christianity is not the apparition, but the transparence of God in the universe. Not only the ray that emerges, but the ray that penetrates. Not the Epiphany but the Diaphaneity».
The universe in cosmogenesis invites us to live the experience that
underlies panenteism: in every minimal manifestation of being, in every
movement, in every expression of life we are in the presence and action
of God. Embracing the world we embrace God. Those who are sensitive to
the Sacred and to the Mystery pull God out of anonymity, and give the
Divine a name. They celebrate the Divine with hymns, songs and rites,
through which they express their experience of God. They are witness to
what Paul said to the Greeks from Athens: “We live, we move, we exist in
God.” (17, 28).
Por Leonardo Boff
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/04/21/panteism-and-panenteism-a-necessary-distinction/
domingo, 15 de abril de 2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
“Tempo de Partir”, do pastor Ricardo Gondim
Pastor desabafa e se diz rompendo com ‘movimento evangélico’
O pastor Ricardo Gondim, da Igreja Betesda, anunciou em seu site, através de
um artigo, que está rompendo com o Movimento Evangélico. Narrando suas
experiências religiosas desde adolescência, quando abandonou o
catolicismo inquieto pelo que chamou de “dogmas” da igreja romana, o
pastor falou sobre o que o fez romper com a Igreja Presbiteriana e com a
Assembleia de Deus, exemplificando cada caso.
Agora,
se dizendo sem saber para onde ir, afirma que está querendo “apenas
experimentar a liberdade prometida nos Evangelhos” e que não abandonará
sua vocação de pastor e continuará servindo na Betesda.
Os
motivos listados por Gondim em seu artigo reclamam da transformação do
evangelho em negócio, e se diz “incapaz de tolerar” a transformação da
fé em negócio. “Não posso aceitar, passivamente, que tentem converter os
cristãos em consumidores e a igreja, em balcão de serviços religiosos.
Entendo que o movimento evangélico nacional se apequenou. Não consegue
vencer a tentação de lucrar como empresa. Recuso-me a continuar
esmurrando as pontas de facas de uma religião que se molda à Babilônia”,
acusa o pastor.
A
falta de afinidade com os grandes líderes evangélicos nacionais também é
colocada como uma questão de peso e decisiva para o rompimento: “Não
consigo admirar a enorme maioria dos formadores de opinião do movimento
evangélico (principalmente os que se valem da mídia). Conheço muitos de
fora dos palcos e dos púlpitos. Sei de histórias horrorosas, presenciei
fatos inenarráveis e testemunhei decisões execráveis”, afirma o pastor,
sem citar nomes.
Em
mais uma crítica direta à teologia da prosperidade, que tem sido
priorizada em diversas denominações, o pastor Gondim afirma que a igreja
se tornou inútil ao pregar essa mensagem: “No momento em que o sal
perde o sabor para nada presta senão para ser jogado fora e pisado pelos
homens. Não desejo me sentir parte de uma igreja que perde
credibilidade por priorizar a mensagem que promete prosperidade. Como
conviver com uma religião que busca especializar-se na mecânica das
“preces poderosas”? O que dizer de homens e mulheres que ensinam a
virtude como degrau para o sucesso? Não suporto conviver em ambientes
onde se geram culpa e paranoia como pretexto de ajudar as pessoas a
reconhecerem a necessidade de Deus”.
Um
texto publicado pelo jornalista Paulo Lopes, atribuído a José Geraldo
Gouvêa, ateu declarado, afirma que “Gondim não tem para onde ir, a não
ser os braços do ateísmo”. O autor do texto afirma se identificar com o
pastor, “uma espécie de Leonardo Boff evangélico”, fazendo menção ao
ex-frei e crítico ferrenho da Igreja Católica.
Confira abaixo a íntegra do artigo “Tempo de Partir”, do pastor Ricardo Gondim:
Não
perdi o juízo. Minha espiritualidade não foi a pique. Minhas muitas
tarefas não me esgotaram. Entretanto, não cessam os rótulos e os
diagnósticos sobre minha saúde espiritual. Escrevo, mas parece que as
minhas palavras chegam a ouvidos displicentes. Para alguns pareço vago,
para outros, fragmentado e inconsistente nas colocações (talvez seja
mesmo). Várias pessoas avisam que intercedem a Deus para que Ele me
acuda.
Minha
peregrinação cristã está, há muito, marcada por rompimentos. O
primeiro, rachei com a Igreja Católica, onde nasci, fui batizado e fiz a
Primeira Comunhão. Em premonitórias inquietações não aceitava dogmas.
Pedi explicações a um padre sobre certas práticas que não faziam muito
sentido para mim. O sacerdote simplesmente deu as costas, mas antes
advertiu: “Meu filho, afaste-se dos protestantes, eles são um
problema!”.
Depois
de ler a Bíblia, decidi sair do catolicismo; um escândalo para uma
família que se orgulhava de ter padres e freiras na árvore genealógica –
e nenhum “crente”. Aportei na Igreja Presbiteriana Central de
Fortaleza. Meus únicos amigos crentes vinham dessa denominação.
Enfronhei em muitas atividades. Membro ativo, freqüentei a escola
dominical, trabalhei com outros jovens na impressão de boletins,
organizei retiros e acampamentos. No cúmulo da vontade de servir, tentei
até cantar no coral – um desastre. Liderei a União de Mocidade. Enfim,
fiz tudo o que pude dentro daquela estrutura. Fui calvinista. Acreditei
por muito tempo que Deus, ao criar todas as coisas, ordenou que o
universo inteiro se movesse de acordo com sua presciência e soberania.
Aceitei tacitamente que certas pessoas vão para o céu e para o inferno
devido a uma eleição. Essa doutrina fazia sentido para mim até porque eu
me via um dos eleitos. Eu estava numa situação bem confortável. E podia
descansar: a salvação da minha alma estava desde sempre garantida.
Mesmo que caísse na gandaia, no último dia, de um jeito ou de outro, a
graça me resgataria. O propósito de Deus para minha vida nunca seria
frustrado, me garantiram.
Em
determinada noite, fui a um culto pentecostal. O Espírito Santo me
visitou com ternura. Em êxtase, imerso no amor de Deus, falei em línguas
estranhas – um escândalo na comunidade reverente e bem comportada. Sob o
impacto daquele batismo, fui intimado a comparecer à versão moderna da
Inquisição. Numa minúscula sala, pastores e presbíteros exigiram que eu
negasse a experiência sob pena de ser estigmatizado como reles
pentecostal. Ameaçaram. Eu sofreria o primeiro processo de expulsão,
excomunhão, daquela igreja desde que se estabelecera no século XIX.
Ainda adolescente e debaixo do escrutínio opressivo de uma gerontocracia
inclemente, ouvi o xeque mate: “Peça para sair, evite o trauma de um
julgamento sumário. Poupe-nos de sermos transformados em carrascos”. Às
duas da madrugada, capitulei. Solicitei, por carta, a saída. A partir
daquele momento, deixei de ser presbiteriano.
De
novo estava no exílio. Meu melhor amigo, presidente da Aliança Bíblica
Universitária, pertencia a Assembleia de Deus e para lá fui. Era mais um
êxodo em busca de abrigo. Eu só queria uma comunidade onde pudesse
viver a fé. Cedo vi que a Assembleia de Deus estava engessada. Sobravam
legalismo, politicagem interna e ânsia de poder temporal. Não custou e
notei a instituição acorrentada por uma tradição farisaica. Pior,
iludia-se com sua grandeza numérica. Já pastor da Betesda eu me tornava,
de novo, um estorvo. Os processos que mantinham o povo preso ao
espírito de boiada me agrediam. Enquanto denunciava o anacronismo
assembleiano eu me indispunha. A estrutura amordaçava e eu me via
inibido em meu senso crítico. A geração de pastores que ascendia se
contentava em ficar quieta. Balançava a cabeça em aprovação aos
desmandos dos encastelados no poder. Mais uma vez, eu me encontrava numa
sinuca. De novo, precisei romper. Eu estava de saída da maior
denominação pentecostal do Brasil. Mas, pela primeira vez, eu me sentia
protegido. A querida Betesda me acompanhou.
Agora
sinto necessidade de distanciar-me do Movimento Evangélico. Não tenho
medo. Depois de tantas rupturas mantenho o coração sóbrio. As decepções
não foram suficientes para azedar a minha alma, sequer fortes para
roubar a minha fé. “Seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso”.
Estou
crescentemente empolgado com as verdades bíblicas que revelam Jesus de
Nazaré. Aumenta a minha vontade de caminhar ao lado de gente humana que
ama o próximo. Sinto-me estranhamente atraído à beleza da vida. Não
cesso de procurar mentores. Estou aberto a amigos que me inspirem a
alma.
Então
por que uma ruptura radical? Meus movimentos visam preservar a minha
alma da intolerância. Saio para não tornar-me um casmurro rabugento. Não
desejo acabar um crítico que nunca celebra e jamais se encaixa onde a
vida pulsa. Não me considero dono da verdade. Não carrego a palmatória
do mundo. Cresce em mim a consciência de que sou imperfeito. Luto para
não permitir que covardia me afaste do confronto de meus paradoxos. Não
nego: sou incapaz de viver tudo o que prego – a mensagem que anuncio é
muito mais excelente do que eu. A igreja que pastoreio tem enormes
dificuldades. Contudo, insisto com a necessidade de rescindir com o que
comumente se conhece como Movimento Evangélico.
1.
Vejo-me incapaz de tolerar que o Evangelho se transforme em negócio e o
nome de Deus vire marca que vende bem. Não posso aceitar, passivamente,
que tentem converter os cristãos em consumidores e a igreja, em balcão
de serviços religiosos. Entendo que o movimento evangélico nacional se
apequenou. Não consegue vencer a tentação de lucrar como empresa.
Recuso-me a continuar esmurrando as pontas de facas de uma religião que
se molda à Babilônia.
2.
Não consigo admirar a enorme maioria dos formadores de opinião do
movimento evangélico (principalmente os que se valem da mídia). Conheço
muitos de fora dos palcos e dos púlpitos. Sei de histórias horrorosas,
presenciei fatos inenarráveis e testemunhei decisões execráveis. Sei que
muitas eleições nas altas cupulas denominacionais acontecem com
casuísmos eleitoreiros imorais. Estive na eleição para presidente de uma
enorme denominação. Vi dois zeladores do Centro de Convenções aliciados
com dinheiro. Os dois receberam crachá e votaram como pastores. Já
ajudei em “cruzadas” evangelísticas cujo objetivo se restringiu filmar a
multidão, exibir nos Estados Unidos e levantar dinheiro. O fim último
era sustentar o evangelista no luxo nababesco. Sou testemunha ocular de
pastores que depois de orar por gente sofrida e miserável debocharam
delas, às gargalhadas. Horrorizei-me com o programa da CNN em que
algumas das maiores lideranças do mundo evangélico americano apoiaram a
guerra do Iraque. Naquela noite revirei na cama sem dormir. Parecia
impossível acreditar que homens de Deus colocam a mão no fogo por uma
política beligerante e mentirosa de bombardear outro país. Como um
movimento, que se pretende portador das Boas Novas, sustenta uma guerra
satânica, apoiada pela indústria do petróleo.
3.
No momento em que o sal perde o sabor para nada presta senão para ser
jogado fora e pisado pelos homens. Não desejo me sentir parte de uma
igreja que perde credibilidade por priorizar a mensagem que promete
prosperidade. Como conviver com uma religião que busca especializar-se
na mecânica das “preces poderosas”? O que dizer de homens e mulheres que
ensinam a virtude como degrau para o sucesso? Não suporto conviver em
ambientes onde se geram culpa e paranoia como pretexto de ajudar as
pessoas a reconhecerem a necessidade de Deus.
4.
Não consigo identificar-me com o determinismo teológico que impera na
maioria das igrejas evangélicas. Há um fatalismo disfarçado que enxerga
cada mínimo detalhe da existência como parte da providência. Repenso as
categorias teológicas que me serviam de óculos para a leitura da Bíblia.
Entendo que essa mudança de lente se tornou ameaçadora. Eu, porém,
preciso de lateralidade. Quero dialogar com as ciências sociais. Preciso
variar meus ângulos de percepção. Não gosto de cabrestos. Patrulhamento
e cenho franzido me irritam . Senti na carne a intolerância e como o
ódio está atrelado ao conformismo teológico. Preciso me manter aberto à
companhia de gente que molda a vida, consciente ou inconsciente, pelos
valores do Reino de Deus sem medo de pensar, sonhar, sentir, rir e
chorar. Desejo desfrutar (curtir) uma espiritualidade sem a canga pesada
do legalismo, sem o hermético fundamentalismo, sem os dogmas estreitos
dos saudosistas e sem a estupidez dos que não dialogam sem rotular.
Não,
não abandonarei a vocação de pastor. Não negligenciarei a comunidade
onde sirvo. Quero apenas experimentar a liberdade prometida nos
Evangelhos. Posso ainda não saber para onde vou, mas estou certo dos
caminhos por onde não devo seguir.
Soli Deo Gloria
Fonte: http://www.creio.com.br/2008/noticias01.asp?noticia=17218
PS.: Que coragem! Todo meu respeito e toda minha admiração pelo Pastor Ricardo Gondim. Deus o abençoe.
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