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sábado, 26 de maio de 2012

ALTERIDADE - Frei Betto

O que é alteridade? É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem.
A nossa tendência é colonizar o outro, ou partir do princípio de que eu sei e ensino para ele. Ele não sabe. Eu sei melhor e sei mais do que ele. Toda a estrutura do ensino no Brasil, criticada pelo professor Paulo Freire, é fundada nessa concepção. O professor ensina e o aluno aprende. É evidente que nós sabemos algumas coisas e, aqueles que não foram à escola, sabem outras tantas, e graças a essa complementação vivemos em sociedade. Como disse um operário num curso de educação popular: "Sei que, como todo mundo, não sei muitas coisas".
Numa sociedade como a brasileira em que o apartheid é tão arraigado, predomina a concepção de que aqueles que fazem serviço braçal não sabem. No entanto, nós que fomos formados como anjos barrocos da Bahia e de Minas, que só têm cabeça e não têm corpo, não sabemos o que fazer das mãos. Passamos anos na escola, saímos com Ph.D., porém não sabemos cozinhar, costurar, trocar uma tomada ou um interruptor, identificar o defeito do automóvel... e nos consideramos eruditos. E o que é pior, não temos equilíbrio emocional para lidar com as relações de alteridade.
Daí por que, agora, substituíram o Q.I. para o Q.E., o Quociente Intelectual para o Quociente Emocional. Por quê? Porque as empresas estão constatando que há, entre seus altos funcionários, uns meninões infantilizados, que não conseguem lidar com o conflito, discutir com o colega de trabalho, receber uma advertência do chefe e, muito menos, fazer uma crítica ao chefe.
Bem, nem precisamos falar de empresa. Basta conferir na relação entre casais. Haja reações infantis...
Quem dera fosse levada à prática a idéia de, pelo menos a cada três meses, um setor da empresa fazer uma avaliação, dentro da metodologia de crítica e autocrítica. E que ninguém ficasse isento dessa avaliação. Como Jesus um dia fez, ao reunir um grupo dos doze e perguntar: "O que o povo pensa de mim?" E depois acrescentou: "E o que vocês pensam de mim?"
Quem, na cultura ocidental, melhor enfatizou a radical dignidade de cada ser humano, inclusive a sacralidade, foi Jesus. O sujeito pode ser paralítico, cego, imbecil, inútil, pecador, mas ele é templo vivo de Deus, é imagem e semelhança de Deus. Isso é uma herança da tradição hebraica. Todo ser humano, dentro da perspectiva judaica ou cristã, é dotado de dignidade pelo simples fato de ser vivo. Não só o ser humano, todo o Universo. Paulo, na Epístola aos Romanos, assinala: "Toda a Criação geme em dores de parto por sua redenção".
Dentro desse quadro, o desafio que se coloca para nós é como transformar essas cinco instituições pilares da sociedade em que vivemos: família, escola, Estado (o espaço do poder público, da administração pública), Igreja (os espaços religiosos) e trabalho. Como torná-los comunidades de resgate da cidadania e de exercício da alteridade democrática? O desafio é transformar essas instituições naquilo que elas deveriam ser sempre: comunidades. E comunidades de alteridade.
Aqui entra a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então sou capaz de entrar em relação com ele pela única via possível – porque, se tirar essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como sou - a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral. Ou seja, isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua interioridade.

Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto - autobiografia escolar" (Ática), entre outros livros.
Fonte: http://www.freibetto.org/index.php/artigos/45-alteridade-frei-betto

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Amor, a base para o crescimento


“A retidão e a justiça são os alicerces do teu trono; o amor e a fidelidade vão à tua frente.” (NVI)

“Justiça e juízo são a base do teu trono; benignidade e verdade vão adiante de ti.” (Versão Revisada de acordo com os melhores textos em hebraico e grego)
“Justiça e direito são o fundamento do teu trono; graça e verdade te precedem.” (RA)
Salmos 89.14
  
Assim como um cordão de três dobras é mais recomendado por ser mais forte, a contemplação de um texto bíblico a partir de três versões diferentes é, sem dúvida alguma, mais enriquecedora do que a partir de uma única versão. Deste modo, nasce uma reflexão sobre a pessoa de Deus, bem como, sobre o modo como ele se “inclina” em nossa direção, a partir do texto acima.
Enquanto a Versão Revisada de acordo com os melhores textos em hebraico e grego, lançada pela Hagnos, e a Revista e Atualizada trazem a palavra “justiça” logo de início, a Nova Versão Internacional inverte a ordem trazendo primeiro a palavra “retidão”, que substitui as palavras “juízo” e “direito”, nas outras versões, respectivamente. Trançando os termos escolhidos, podemos concluir que Deus é, portanto, o soberano juiz sobre tudo o que há na esfera da existência, e que ele não se omite, em hipótese alguma, do exercício de sua autoridade, mas não o faz como um déspota arbitrário e inconsequente. Deus exerce justiça, ou seja, executa juízo com retidão e direito. Ele se baseia em leis, estabelecidas por ele mesmo, às quais ele não negligencia jamais. “Benignidade”, que é a misericórdia amorosa de Deus, e “graça”, sua voluntária disposição de nos manter existindo nele apesar de nossa rebelião, correspondem à palavra “amor”, na NVI, o que não poderia ser diferente, visto que nada pode justificar essa boa e despretensiosa vontade de Deus em relação à humanidade, bem como em relação ao restante da criação, senão o seu eterno amor, posto ser ele mesmo o amor personificado, ou a essência do próprio amor – “Deus é amor” (1 Jo 4.8). Mas não é apenas o amor que vai à frente dele, mas também sua fidelidade, ou verdade. Isto é, diferente de nós que estamos em constante variação, na expectativa de alcançarmos “o estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13), nele não há variação. Deus é a verdade absoluta, é bondade e perfeição plena, e sua fidelidade deve ser compreendida no sentido de que é impossível que ele aja de outra forma em relação a nós, senão com, e por amor. Ou seja, Deus é o justo juiz, que, portanto, exerce juízo com retidão. E o exercício do seu juízo é sempre em amor, e isso não muda jamais.
Ter a visão correta a respeito de Deus, e de como ele se move em relação a nós, é de importância essencial para a adoração verdadeira. Jesus, conversando com a mulher samaritana lhe disse: “Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.22-24). Segundo Jesus, a verdadeira adoração não é atrelada a tradições humanas, lugares físicos ou imagens de nenhuma natureza, porque Deus é espírito, e é necessário que seus adoradores sejam almas livres para adorá-lo. A adoração precisa ser em espírito e em verdade. Sem engano nem conclusões equivocadas a respeito de quem Deus é. Em Salmos 115.8 diz que nós nos tornamos à semelhança do que adoramos. É por isso que o Pai procura adoradores que o adorem em verdade. Porque ele deseja que nos ternemos como ele, segundo a imagem do seu Cristo. Escrevendo sua segunda carta aos coríntios, o Apóstolo Paulo afirmou: “E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito” (2 Co 3.18). Infelizmente nós temos sempre uma tendência de olharmos para Deus através de algum véu, e assim o vemos como se ele fosse, ou um mercenário, um comerciante barato, sempre à nossa disposição para trocar “bênçãos” ou favores por sacrifícios e ofertas, ou então como se ele fosse um déspota, impessoal e cheio de desamor, impiedoso e mecanicista, agindo sempre como se toda a criação não passasse de um brinquedo em suas mãos impiedosas e descuidadas. Mas Deus é amor (1 Jo 4.8), e assim como na parábola do filho pródigo em Lucas 15, se sofremos, é porque nos afastamos dele voluntariamente, enquanto humanidade. Mas como um pai de amor que nos deixou ir, porque quem ama não aprisiona, antes liberta, ele espera ansiosamente pelo nosso retorno, e não apenas isto, mas também preparou o caminho de volta, se fazendo criatura e exercendo o juízo que era devido a nós sobre si mesmo, na cruz, para nos reconciliar consigo mesmo – “No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. (...) Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1.1 e 14); “Ele [Jesus] é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo” (1 Jo 2.2).
Podemos concluir então, que é de fundamental importância que tenhamos sobre Deus a visão correta, para que, por meio da adoração em espírito e verdade, sejamos transformados pelo Espírito Santo, segundo à imagem de Jesus Cristo. E embora não possamos entender tudo que acontece ao nosso redor ou mesmo conosco, posto sermos apenas criaturas, sermos limitados em nossa própria natureza, uma verdade sobre Deus nós jamais devemos esquecer: Deus é amor. Ele vem até nós, sempre em amor e por amor. Nenhuma outra definição a respeito de Deus cabe na revelação do Pai em Jesus. Porque “esta é a mensagem que dele ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nele não há treva alguma” (1 Jo 1.5).